quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Filho do Céu

Imagem: Salão da Harmonia Suprema (Cidade Proibida, Beijing), é o maior salão do palácio, usado nas ocasiões mais solenes, como a coroação do imperador
Fonte: Diogo Farias


Depois de sua experiência na China, durante o domínio mongol, Marco Polo descreveu o Grande Khan, Khubilai, como “o homem mais poderoso do mundo, tanto em relação ao respeito de seus súditos, quanto ao seu território ou tesouro”. Os imperadores chineses não tinham apenas a responsabilidade de governar o seu território e as populações que viviam dentro dele, mas também deviam assegurar que sua própria conduta promoveria a “ordem natural”. A função do Filho do Céu desenvolveu-se através de três mil anos, desde o período dos reis Shang, cujos ritos funerários eram acompanhados por sacrifícios de homens e cavalos que os serviriam em suas vidas pós-morte, até o triste fim de Puyi, o último imperador Qing.

Alguns conceitos de soberania surgiram na Antiguidade e permaneceram até o século XX. O dogma mais importante atribuído à Confúcio (Kong Fuzi) tornou-se a justificação cósmica da doutrina imperial chinesa: como não há dois sóis no céu, então não haveria dois Filhos do Céu na terra. Segundo esta doutrina, o imperador (Huangdi) - ou, dependendo do caso, o rei (Wang) - não era apenas o governante da China, mas o soberano de “tudo abaixo do Céu”. Todos os povos deveriam simplesmente esperar o momento em que receberíam os benefícios da ordem do Filho do Céu (Tianzi).

Outra antiga doutrina afirmava que o governante possuía sua posição através do Mandato Celestial (Tianming), que poderia ser retirado de seu detentor, se este não correspondesse às expectativas que seu cargo exigia. A perda do Mandato Celestial poderia ocorrer por meio de desastres naturais ou rebeliões populares. Os soberanos que fossem substituídos, eram caracterizados como péssimos governantes pelos historiadores da dinastia seguinte, enquanto os atos dos fundadores da nova dinastia eram vistos como auspiciosos.

Outra importante função do imperador era assegurar a ordem cósmica. Sua conduta e seus rituais diários eram executados para este fim. Alguns imperadores trabalhavam por horas e atuavam na administração imperial, mas a tradição cosmológica pregava que os assuntos práticos deveriam ser deixados para os burocratas. O imperador deveria ser visto como a personificação das virtudes que garantiriam o respeito do povo, ou seja, a conduta moralmente correta do imperador serviria como exemplo a ser seguido por todos . Em relação à administração prática, o imperador deveria apenas apontar seus ministros. Na China, a burocracia era eventualmente recrutada através de exames públicos, principalmente a partir da Dinastia Song (960-1279).

Os modelos tradicionais

O estudo da Antiguidade permite-nos descobrir as fontes do ideal civil chinês. Para Confúcio e Mêncio (Meng Zi), pensadores do final do período Zhou, cujas ideias foram influentes no pensamento político chinês, um dos eventos mais importantes da História da China foi o estabelecimento da Dinastia Zhou no século XI a.C. Três personagens históricos, o rei Wen, o rei Wu e o Duque de Zhou foram determinantes para criação do ideal do bom governante. Wen significa “civilizado” e Wu “marcial”, os nomes desses personagens históricos provavelmente são póstumos. O caráter militar do rei Wu foi aprovado (vale lembrar que a tradição chinesesa valoriza mais a cultura e a civilização do que a violência), pois este tinha a finalidade de trazer a paz ao povo, enquanto o rei Wen era piedoso e preocupava-se com suas obrigações religiosas, protegia o seu povo e suas instituições eram exemplares. Ao rei Wen foi cultuado por demonstrar o caminho para derrotar e consquistar a dinatia Shang, porque o rei conseguia atrair o apoio popular através de suas virtudes, o que facilitou a conquista militar do rei Wu.


Imagem: Salão da Harmonia Protetora (Cidade Proibida, Beijing), usado para cerimônias de treinamento e no último estágio dos exames imperiais
Fonte: Diogo Farias

Para Mêncio, a força militar não era a resposta, o governante tinha que instituir medidas econômicas ideais para que os povos dos Estados vizinhos fossem atraídos, para depois unificar o território - suas escrituras remetem ao período em que o poder dos Zhou estava decadente e seu império foi dividido em Estados Guerreiros ou Estados Combatentes. A palavra wen originamente significa “listrado”,“ornamentado” ou “belo”, posteriormente passou a significar “civilização”, com o sentido de ser um adorno ou um refinamento da vida, que distinguia os chineses dos povos bárbaros. Desde muito cedo, o pensamento chinês defendia o comprometimento de seu governante em cultivar as artes civilizadas, que por fim diferenciava os chineses dos bárbaros e uniria a sua população junto à um governo benevolente.

Os filósofos do final do período Zhou deram substância aos mitos que relatavam antigos eventos, contando histórias sobre a sucessão de monarcas lendários que tornaram-se notáveis por cimentar os fundamentos da civilização chinesa. Destes heróis-culturais, o último foi You, o Grande, que salvou seu povo de uma imensa enchente, utilizando canais que conduziram as águas para o mar. You foi considerado o fundador da Dinastia Xia, que é tradicionalmente a predecessora da Dinastia Shang. Antes de You, vieram os reis Yao e Shun, este, um simples agricultor, conhecido por sua piedade-filial (uma tradição fortemente enraizada na cultura chinesa) foi escolhido como o sucessor de Yao. Outro importante herói-cultural foi Fuxi que teria inventado a escrita através do estudo de marcas em cascos de tartarugas, à Shennong foi creditado a invenção da agricultura e o Imperador Amarelo foi responsabilizado por diversas invenções como: o compasso, o barco, a carroça, o arco e flecha, a moeda e o calendário. Todos estes heróis míticos, mais os reis Wen e Wu, foram agregados à lista tradicional de governantes da História Imperial da China, sendo os principais exemplos de admiração e emulação para imperadores posteriores.

A doutrina do governo pela não-ação

Os filósofos Zhou, particularmente da escola confuciana, proveram outros elementos para compor a figura do governante ideal. Alguns relatos antigos afirmavam que a tarefa do soberano era governar através da não-ação, entretanto outros relatos consideravam que a não-ação era diligente e paternalista. A doutrina do governo pela não-ação teve origem em uma espécie de poder espiritual do Céu, através da eficácia deste poder é possível manter a ordem de “tudo abaixo do Céu”. O mesmo conceito de não-ação era um dos paradoxos centrais da filosofia taoísta, que acredita em um tipo de estado natural em que todos inconscientemente e sem nenhuma tipo de ação comportam-se conforme o Dao (Tao) ou a natureza do Dao. Mas entre os confucianos esta atitude desenvolveu uma crença na qual o governante ideal não era um administrador em prática, mas um líder moral perfeito, um exemplo para o povo. Neste raciocínio, eram os homens sábios que deveriam cuidar da administração.

Imagem: A Fênix simboliza a imperatriz e o Dragão representa o imperador (Palácio de Verão, Beijing)
Fonte: Diogo Farias

Mêncio comparou a tarefa dos ministros com a do artesão que trabalha com a jade. Como o ministro, ao artesão era confiado um material extremamente valioso, mas o rei não insistiria em dizer ao artesão como polir a jade - o próprio caractere que significa reino, Estado ou país, possui dentro dele o caractere de jade. A administração através de ministros sábios e virtuosos também indica que a aristocracia perdeu o monopólio do poder. Porém esta mudança na estrutura do poder foi gradual, somente durante a Dinastia Song os intelectuais substituiram os aristocratas na administração imperial.

O bem-estar do povo

A importância do povo é recorrente na literatura antiga, segundo Mêncio: “o povo é o mais importante, os espíritos da terra e dos grãos vem e seguida e o soberano é insignificante.” Xun Zi afirmava: “o príncipe é o barco e o povo era a água.” Confúcio dizia que a confiança do povo era mais importante para o governo do que o suprimento de armas e comida, conceito também defendido por Mêncio, quando afirmou que a harmonia entre o povo seria mais importante do que a defesa militar. Nestas circunstâncias, a principal responsabilidade do governante era proteger o povo para ganhar o seu suporte, desta maneira deveria cuidar do seu povo, como um pastor cria seu rebanho. Outro conceito bem difundido, era que o governante deveria atuar como pai e mãe do povo.

Mêncio e os confucianos Han afirmavam que o bem-estar econômico poderia ser a base para a promoção da moral popular. O governante tinha que prover as necessidades do povo para assegurar que a lei e a ordem prevalecesse entre seus súditos. Mêncio criticou governantes por não repartir seus prazeres com o povo, estes eram comparados com o benevolente rei Wen, que permitiu seus súditos usufruirem o seu parque privado. Outra preocupação de Mêncio eram às medidas econômicas que amparariam o povo em momentos de más colheitas.

O fundador da Dinastia Song tinha uma grande reputação como exemplo de modelo confuciano e seus sucessores eram cuidadosamente treinados para manter esta imagem. Os imperadores Qing foram um dos que mais se esforçaram para serem vistos como os verdadeiros monarcas confucianos: recebiam uma educação conforme a tradição confuciana, tentavam se projetar como intelectuais confucianos e promover o conceito de bem-estar do povo. Entretanto a grande maioria falhou em suas tentativas de atingir este ideal, todos os imperadores sabiam, que se falhassem, poderiam perder o Mandato do Céu. Catástrofes naturais, fomes e crises econômicas e rebeliões populares eram indícios de que a dinastia vigente estava em declínio e o Mandato do Céu estaria sob ameaça.

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