segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A conquista do al-Andalus


Imagem: Estátua de Ṭāriḳ ibn Ziyād em Tétouan (Marrocos)

Fonte: www.skyscrapercity.com

As Fontes:

Estudar o período inicial da presença muçulmana na Península Ibérica é uma tarefa muito complicada, pois as diferentes fontes sobre este período trazem informações contraditórias; consequentemente, esta situação dificulta determinar precisamente as circunstâncias e o contexto da conquista muçulmana do al-Andalus.

A dificuldade em traçar a História da conquista do al-Andalus resulta, essencialmente, da ausência de textos contemporâneos, como também de relatos feitos num período relativamente próximo aos fatos descritos (com a exceção de duas fontes cristãs: a Chronica byzantia-arabica de 741 e a Continuatio Hispana de 754 – entretanto, estes textos são relativamente curtos). As fontes árabes mais antigas que chegaram até nós, o Futūḥ Miṣr do egípcio Ibn ʿAbd al-akam e o Taʾrīkh de Ibn Ḥabīb da edição de al-Māghamī, ambas do século IX, baseiam-se em lendas ou exageram algumas situações. As fontes disponíveis são geralmente trabalhos escritos muito tempo após a chegada do exército muçulmano na Península, o que cria a necessidade de justapor estes relatos, que não são uniformes e possuem procedências muito diversas, para, enfim, reconstruir o desenrolar dos fatos. Neste caso, dois textos anônimos são fundamentais para estudar o primeiro século da presença muçulmana no al-Andalus, o Akhbār madjmūʿa e o Fatḥ al-Andalus. Segundo Molina, a opnião dos estudiosos em relação a estes textos são divergentes: alguns acreditam que estes relatos se baseam numa antiga versão escrita das tradições orais, outros afirmam que estas são simples compilações tardias baseadas em textos mais antigos (P. Chameta, Invasión e islamización, 50; L. Molina, Los Akhbār madjmūʿa y la historiografía árabe sobre el período olmeya en al-Andalus, in al-Qanṭara, x <1989>, 513-543, e o Estudio desta edição do Fatḥ). Entretanto, apesar desta aparente desordem, alguns fatos podem ser reconstituídos de maneira satisfatória.

al-Andalus:

Segundo Joaquín Vallvé, o termo al-Andalus - grosso modo, utilizado pelos muçulmanos, principalmente durante o período medieval, para denominar a Península Ibérica - já aparece em tradições atribuídas à Muammad e em poesías árabes pré-islâmicas ou do início do período islâmico. Todas estas fontes são anteriores a 711 e, portanto, apontam à uma origem oriental que não tem nada a ver com a teoria que sustenta que o termo al-Andalus deriva dos vândalos, porque estes cruzaram a Península Ibérica a caminho da África em 429.

O nome al-Andalus aparece nestas fontes orientais e nas primeiras que narram a conquista muçulmana como nome de uma ilha, Djazīrat al-Andalus (Ilha al-Andalus), ou de um mar, Bar al-Andalus (Mar al-Andalus). Através da análise de fontes grecolatinas, árabes e romances, Vallvé acredita que Djazīrat al-Andalus é uma tradução pura e simples de "Ilha do Atlântico" ou Atlântida, resultado de uma transmissão literária do mito de Platão.

Aliado à transmissão do mito de Atlântida, os povos do Mediterrâneo oriental mantinham a crença de que haveria uma ilha, ou restos dela, além das Colunas de Hércules (Gibraltar). As fontes árabes do Norte da África e as fontes hispanoárabes identificam claramente o Bar al-Andalus com o Oceano Atlântico.

Antecedentes:

A Península Ibérica fora uma das regiões mais ricas e desenvolvidas do Império Romano Ocidental. Nos três séculos que antecederam a vinda dos muçulmanos, esta região tinha sido dominada por diversos povos de origem germânica, dentre estes, os que tiveram o maior sucesso em impor o seu domínio foram os visigodos.

A situação política da Península Ibérica do final do período visigótico (séculos V-VIII) era razoavelmente estável e, exceptuando uma pequena incursão bizantina contra Cartagena, durante dois séculos não se registrou qualquer invasão extrapeninsular. Por outro lado, havia muitas terras desocupadas e poucos povoados - estes eram relativamente pobres e humildes se comparados com o período romano. Os recursos agrícolas eram, em muitos casos, negligenciados ou subexplorados. Existiam também regiões, especialmente nas montanhas ao norte, onde viviam os bascos e os asturianos, que segundo Kennedy, eram povos totalmente independentes de qualquer forma de dominação e onde uma primitiva sociedade de montanha resistia vigorosamente a qualquer jugo exterior.

O Norte da África:

Imagem: A conquista do Norte da África - para uma melhor visualização, clique duas vezes no mapa
Fonte: NICOLLE, David, Atlas Histórico del Mundo Islámico (Madri: Edimat Libros, 2005).


A conquista da Península Ibérica pelos muçulmanos foi talvez inevitável desde o dia em que o general árabe, ʿUḳba b. Nāfiʿ, deteve-se nas praias do Atlântico, em 681. Segundo Wheatcroft, um tradicional relato dessa expedição informa que o comandante muçulmano entrou a cavalo na água, brandiu a espada em direção ao oceano vazio e gritou: “Deus é grande. Se este mar não detivesse meu avanço, eu continuaria a cavalgar até os reinos desconhecidos do Ocidente, pregando a unidade de Deus e passando a fio de espada as nações revoltosas que cultuem em qualquer outro deus que não Ele”. Assim, a expansão muçulmana deveria redirecionar a sua rota, desta forma a Península Ibérica passaria a ser um objetivo natural.

Antes da chegada dos muçulmanos, a região dos atuais Estados da Líbia, da Tunísia, da Argélia e do Marrocos estava ocupada por dois grupos: bizantinos e berberes. Os bizantinos detinham uma série de redutos na costa, onde os dois mais importantes eram Trípoli e Cartago. Na época de Justiniano (483-565), os bizantinos reconquistaram as terras que estavam sob domínio dos vandalos e organizaram um complexo sistema de defesas nas zonas meridionais das áreas povoadas, mas estas teriam sido abandonadas no século VII, quando se iniciaram os ataques muçulmanos.

Os berberes (berber/barbar) detinham o verdadeiro poder da região. Alguns berberes foram aculturados no mundo bizantino, muitos deles adotaram o cristianismo; porém a maioria daqueles que habitavam as regiões mais isoladas continuavam pagãos. Havia berberes que moravam em cidades, entretanto a maioria deles vivia no campo, praticando a agricultura ou criando carneiros e cabras nas estepes; ou, ainda, alguns eram nômades, como ainda são os tuaregues (do árabe, ṭawāriḳ; do berbere, tawāreg).

A conquista do norte da África iniciara-se logo em 642, quando o conquistador do Egito, ʿAmr b. al-ʿĀ, chefiou uma expedição na Cirenaica (grosso modo, atual Líbia). Dali enviou um exército até Zawila (um oásis povoado do Sul) comandado por ʿUḳba b. Nāfiʿ. A conquista do Norte da África foi difícil, em parte por causa de disputas políticas entre os muçulmanos, porém deve-se considerar a forte resistência oferecida, quer pelas tribos berberes do interior, quer pelas guarnições das cidades bizantinas como Trípoli e Cartago. Como afirmou Kennedy, mais do que os outros comandantes árabes, ʿUḳba deve ter compreendido que a melhor forma para dominar o Norte da África seria atraindo o apoio das tribos berberes. Em 670, o general fundou a colônia muçulmana de Ḳayrawān longe da costa, na planície central da Tunísia, para servir de base para futuras campanhas.

Em 681, ʿUḳba chefiou um espetacular ataque, que estendeu seu domínio até Tânger (Ṭandja), apesar de não ter sido organizado colônias muçulmanas para além da moderna Tunísia. Foi sua última e maior proeza, mas a sua memória perdurou, e os seus filhos continuaram a desempenhar um papel decisivo no Norte da África. Seguiu-se um período em que os árabes quase foram expulsos da região, e a própria Ḳayrawān caiu nas mãos do chefe berbere Kusayla (ou Kasīla). Os muçulmanos não retomariam a iniciativa senão em 694, altura em que o califa ʿAbd al-Malik, enviou um exército de sírios comandado por assān b. Nuʿman al-Ghassānī. Este capturou o último posto avançado bizantino em Cartago e derrotou um poderoso chefe berbere, a "feiticeira" al-Kāhina, estabelecendo-se firmemente em Ḳayrawān, em 701. Seu sucesso não acorreu só graças às suas tropas sírias mas também em virtude da política de colaboração com os berberes.

assān foi demitido pelo governador do Egito em 704, provavelmente por causa do seu sucesso, sendo substituído por Mūsā b. Nuayr. Mūsā nasceu em 640; seu pai fazia parte do séquito de Muʿāwiya, o fundador da Dinastia Omíada (Banū Umayya). Mūsā foi apontado pelo califa ʿAbd al-Malik para coletar o kharādj (impostos) em al-Bara, entretanto, sendo suspeito de fraude, fugiu e refugiou-se com o irmão do califa, o governador do Egito ʿAbd al-ʿAzīz b. Marwān; este entregou Mūsā para o califa na Síria, que lhe deu cerca de 100.000 dinares (dīnār) como gratificação. ʿAbd al-ʿAzīz doou metade da quantia para Mūsā e levou-o para o Egito, onde o nomeou como governador da Ifrīiya, anteriormente governada por assān b. Nuʿman. Vários observadores não entraram em acordo sobre a data do seu apontamento ao cargo, mas, de acordo com Lévi-Provençal, possivelmente este fato deve ter ocorrido em 698 ou no ano seguinte. Mūsā prosseguiu com a política de assān de recrutar berberes convertidos para os exércitos muçulmanaos, usando esta nova força para estender o seu domínio mais para oeste. Ocupou Tânger em 708, e nomeou como seu governador um aliado berbere chamado Ṭāriḳ ibn Ziyād.

A conquista do Norte da África fora alcançada através de uma aliança entre árabes e berberes em nome do Islã. À medida que aquela prosseguia, aumentava também o importante contributo berbere. Na altura em que os muçulmanos estavam a conquistar a região correspondente ao atual Marrocos, é provavel que a maioria esmagadora dos elementos do seu exército fosse berbere. Estas tropas compostas por berberes recém-convertidos ao Islã recebiam uma parte do saque, mas apenas alguns deles, como Ṭāriḳ ibn Ziyād, teriam ocupado posições de relevância política.

Os conquistadores alimentavam-se de outras conquistas, o domínio muçulmano no Norte da África teve de se expandir para sobreviver. Se o saque se esgotasse e não surgissem novas oportunidades, então os grupos e tribos lutariam entre si, o que ameaçaria a unidade do império.

Ṭāriḳ ibn Ziyād e a conquista do al-Andalus:

De acordo com a maioria das fontes históricas, Ṭāriḳ ibn Ziyād era um cliente berbere de Mūsā b. Nuayr, que atuou como comandante militar, sob ordens do seu superior, na conquista do Maghrib. Quando Mūsā retornou para Ifrīiya, este delegou à Ṭāriḳ um contigente de tropas, em sua maioria berberes, para defender Tânger. De sua base, Ṭāriḳ manteve contato com o governador de Ceuta, o lendário Conde Juliano. Este último, era provavelmente um governante visigodo, vassalo do rei de Toledo que incitou Ṭāriḳ a invadir a Península. Ibérica. Segundo a tradição, Juliano queria vingar a sua honra, porque o rei dos visigodos violara sua filha.

Algumas versões alegam que Mūsā colocou o projeto em prática ao receber uma autorização do Califa (Khalīfa), em Damasco (Dimashḳ al-Shām). Mas o desenrolar dos fatos faz parecer que Ṭāriḳ atuou por iniciativa própria sem esperar pelo consentimento do seu superior. Antes da expedição de Ṭāriḳ houve uma ou mais incursões menores nas região costeira do al-Andalus, a mais significativa foi, de acordo com muitos autores, liderada por Ṭarīf, outro comandante bérbere, em 710. Ṭarīf liderou um pequeno contigente de 400 soldados de infantaria e cem de cavalaria levemente armados e levando consigo um suprimento mínimo de alimentos e água e nenhum equipamento pesado. Sem encontrarem resistência, logo encheram seus navios com uma enorme quantidade do produto de suas pilhagens. A incursão de Ṭarīf indicava que um ataque surpresa mais organizado ao continente espanhol resultaria em grandes lucros (Wheatcroft).

Imagem: A Conquista da Península Ibérica - para uma melhor visualização, clique duas vezes no mapa

Fonte: NICOLLE, David, Atlas Histórico del Mundo Islámico (Madri: Edimat Libros, 2005).

Finalmente, na primavera do ano seguinte (em Abril de 711), com um exército provavelmente formado somente por soldados bérberes, Ṭāriḳ cruzou o Estreito com embarcações oferecidas por Juliano e desembarcou aos pés de uma montanha que posteriormente veio receber o seu nome, Gibraltar (Djabal Ṭāriḳ). Numerosas fontes árabes concordam com o número de embarcações utilizadas, quatro, e o número da força expedicionária estaria entre 7000 e 12.000 soldados, porém não podemos excluir a possibilidade deles serem apenas algumas centenas. Ao que parece o desenbarque ocorreu de forma tranquila, onde cada embarcação fez cerca de uma dúzia de viagens; possivelmente durante vários dias e sem muita resistência dos habitantes da região. Para Molina, a invasão foi realizada de forma relativamente tranquila, independentemente da conivência ou indiferença da população local.

Imagem: Gibraltar (território britânico)
Fonte: members.virtualtourst.com

O rei visigodo Rodrigo (ou Roderico), que na época estava lutando no norte da Península contra os bascos, apressadamente teve que liderar suas tropas contra os muçulmanos, que já haviam construído uma fortaleza em Gibraltar, de onde conduziam pequenas razias na região para obter provisões. O confronto ocorreu no final do Ramaḍān e no início de Shawwāl (Julho) perto de um rio, que provavelmente pode ser identificado com o Guadalete ou com o Barbate; mas, em todo caso, muito próximo da base muçulmana. Tudo indica que dentro de três meses, as tropas de Ṭāriḳ moveram-se muito pouco, dando tempo para os visigodos organizarem um grande exército - os muçulmanos não aproveitaram o elemento surpresa, o que estratégicamente foi uma decisão imprudente. Parece que a derrota do exército de Rodrigo ocorreu por causa da traição dos filhos do penúltimo rei dos visigodos, Witiza, que não aceitavam a escolha de Rodrigo como sucessor de seu pai - as informações sobre quem eram os filhos de Witiza e seus aliados são contraditórias, entre os principais nomes destacam-se Agila e Oppa. O grupo conhecido como "Filhos de Witiza" tinha como objetivo eliminar Rodrigo e dominar toda a Península.

Após a derrota do rei Rodrigo, o controle da Península Ibérica seria disputado pelos "Filhos de Witiza" e Ṭāriḳ. O próximo estágio do itinerário do comandante berbere foi atacar Écija, onde os remanescentes das forças visigodas haviam refugiado. Esta batalha foi tão dura como a de Guadalete, e novamente a vitória esteve do lado muçulmano, que, de acordo com algumas fontes, foram ajudados pelas tropas de Juliano. Depois desta batalha não havia nada que impedisse o avanço de Ṭāriḳ; este dividiu suas forças em quatro grupos, que partiram para Málaga, Granada, Córdoba (sob o comando de Mughīth al-Rūmī) e para Toledo (liderados por Ṭāriḳ).



Imagem: Ponte Romana de Córdoba (Espanha).
Fonte: Diogo Farias

É curioso que os visogodos não se procurassem em defender eficazmente suas cidades ou reunir um segundo exército. Além da resistência nas montanhas setentrionais, que inicialmente não foi conduzida pelos visigodos, somente Córdoba e Mérida ofereceram uma resistência significante. Os números são são nada grandiosos: o grupo de Mughīth, que atacou Córdoba, teria apenas 300 homens, que não teriam conquistado a cidade se o governante local reunisse mais de 400 para defendê-la. A situação da cidade de Córdoba não era melhor, a ponte romana estava destruída e havia um grande buraco em suas muralhas. Quando os muçulmanos chegaram a Orihuela, o governador Teodemiro tinha tão poucos homens, que vestiu mulheres de soldados e colocou-as nas muralhas. A capital do reino visigodo, abandonada pelos seus dignatários, caiu sem resistência nas mãos de Ṭāriḳ. Talvez esta situação fosse em parte resultado da falta de população armada, ou se esta existisse, não estaria qualificada para eliminar a ameaça.


Imagem: Toledo (Espanha).
Fonte: themaskedlady.blogspot.com


O declínio de Ṭāriḳ:

De acordo com várias fontes, o comandante muçulmano continuou sua marcha em direção ao norte, alcançando Guadalajara e depois Astorga. Segundo alguns relatos, Ṭāriḳ pediu reforços para Mūsā b. Nuayr, com o intuito de consolidar o domínio da Península. Outros afirmam que Mūsā manifestou uma grande irritação ao saber do avanço de seu subordinado e o ordenou a não avançar mais até a sua chegada. Em Junho de 712, Mūsā desembarcou na Península com cerca de 18.000 soldados, predominantemente árabes.

O encontro entre Ṭāriḳ e Mūsā b. Nuayr ocorreu em Toledo ou em suas cercanias. Parece que Mūsā reprimiu o seu subordinado, provavelmente porque o seu sucesso ameaçava a posição do seu superior. A seguir, a figura de Ṭāriḳ tornou-se obscura, talvez eclipsada por seu superior, que junto a ele fora chamado para prestar contas ao califa em Damasco; os dois abandonaram a Península Ibérica em 714. O último ato conhecido de Ṭāriḳ foi seu envolvimento em um julgamento contra Mūsā, provocado possivelmente pelo ressentimento e pela humilhação que sofrera em Toledo - neste tribunal, Ṭāriḳ participou como acusador de seu antigo superior.

Segundo Joaquín Vallvé, Mūsā deixou no al-Andalus seu filho ʿAbd al-ʿAzīz, que se estabeleceu em Sevilha, onde parece que se casou com a viúva do rei Rodrigo ou com sua filha, chamada Egilona. Seu objetivo era legitimar o domínio árabe e consagrar o novo emirado como herdeiro direto da monarquia visigoda. Consolidou as conquistas de seu pai e a tradição lhe atribui a conquista de Évora, Santarém, Coimbra e outras cidades portuguesas. Foi acusado de abandonar as tradições árabes por influência de sua esposa, quando adotou o uso de uma coroa e obrigou os nobres a inclinarem-se diante de sua presença, entretato outros autores afirmam que ele não quis reconhecer o novo califa de Damasco, Sulaymān, por este ter ordenado a prisão e a tortura de seu pai e de seu irmão. O certo é que foi assassinado em Março de 716, na Igreja de Santa Rufina que fora consagrada mesquita pouco tempo antes.

O êxito da conquista:

Segundo Manuela Marín, o êxito do Islã se explica, em primeiro lugar, por causa da situação desagradável que alguns grupos da sociedade peninsular viviam sob o domínio dos visigodos: o peso dos impostos, a condição humilhante dos servos, a discriminação contra os judeus e as contínuas sublevações dos bascos e de povos pagãos do norte, faziam com que esta população não se sentisse representada pelo grande projeto de unidade peninsular dos godos e dos hispanoromanos.

Um fator que pode explicar a ausência de resistência foi que os visigodos não teriam levado suficientemente a sério a invasão. Os adversários visigodos de Rodrigo tinham esperanças de que os invasores o derrotassem e partissem, deixando-os no comando, e é interessante que esta atitude era partilhada pelo menos por alguns invasores. Parece que Ṭāriḳ teve de convencer Mūsā a deixar os muçulmanos instalarem-se no al-Andalus.

De um modo geral, os muçulmanos ofereciam condições generosas que, sem dúvida, tornavam a rendição numa opção mais atraente, ao passo que a resistência vã podia levar a morte, como descobriram os defensores de Córdoba. No al-Andalus, parece que os "Filhos de Witza" puderam manter a posse de suas terras, na região de Múrcia, as condições resumiram-se à autonomia local; em Mérida, os habitantes conseguiram conservar suas posses, mas as propriedades dos que tinham morrido a combater pela cidade, dos que tinham fugido para o norte e das igrejas foram confiscadas. Nas fases finais da conquista, muitos senhores visigodos da região do vale do Ebro seriam autorizados a conservar as suas terras e posições, e em breve se converteram ao Islã. Excetuando-se a ação contra as terras da Igreja, as populações locais puderam conservar a posse das suas terras desde que pagassem uma contribuição fundiária e um imposto de capitação aos conquistadores.

Bibliografia:

  • MOLINA, L., "Ṭāriḳ b. Ziyād", The Encyclopaedia of Islam (CD-ROM), ed. BEARMAN, P. J., BIANQUIS, Th., BOSWORTH, C.E., DONZEL, E. van, HEINRICHS, W.P. (Leiden: Brill, 2005).
  • LÉVI-PROVENÇAL, C., "Mūsā b. Nuayr", The Encyclopaedia of Islam (CD-ROM), ed. BEARMAN, P. J., BIANQUIS, Th., BOSWORTH, C.E., DONZEL, E. van, HEINRICHS, W.P. (Leiden: Brill, 2005).
  • PLAJA, Fernando Díaz, A Vida Quotidiana na Espanha Muçulmana (Lisboa: Editorial Notícias, 1995).
  • REILLY, Bernard, Cristãos e Muçulmanos: A Luta pela Península Ibérica (Lisboa: Editorial Teorema, 1996).
  • KENNEDY, Hugh, Os Muçulmanos na Península Ibérica: História Política do al-Andalus (Mira-Sintra: Publicações Europa-América, 1999).
  • WHEATCROFT, Andrew, Infiéis: O Conflito entre a Cristandade e o Islã, 638-2002 (Rio de Janeiro: Imago Editora, 2004).
  • NICOLLE, David, Atlas Histórico del Mundo Islámico (Madri: Edimat Libros, 2005).
  • VALLVÉ, Joaquín, La Conquista y sus Itinerarios (http://www.almendron.com/historia/medieval/invasion_arabe/ia.htm).
  • MARÍN, Manuela, últimas teorías (http://www.almendron.com/historia/medieval/invasion_arabe/ia.htm).
Obs: Os termos em árabe foram "romanizados" através do sistema de transliteração da Encyclopaedia of Islam. A partir deste post em diante, o padrão da EI será aplicado em todas as transliterações do árabe.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ibn Battuta e o crescimento econômico da China

"Não há no mundo um povo mais rico do que o chinês"
Ibn Battuta (século XIV)

O viajante tangerino relatou o potêncial econômico da China e dos chineses a mais de 600 anos atrás. Durante a maior parte da História a balança comercial entre Ocidente e Oriente sempre foi deficitária para o Ocidente. Esta situação começou a mudar quando os ingleses passaram a vender ópio para China. Com a derrota na Guerra do Ópio, o advento do Imperialismo; e depois com a queda da Dinastia Qing, a disputa do território chinês por "senhores da guerra" (warlords), a ocupação japonesa e a Revolução Comunista fizeram a China perder o seu papel preponderante na economia mundial. A abertura econômica da China e suas impressionantes taxas de crescimento, que os editores do The Economist declararam como "o mais significante desenvolvimento desde Revolução Industrial", relatam o retorno de um gigante após um longo período de hibernação - que na perspectiva da História da China é um período relativamente curto. Neste contexto, outro gigante asiático que acorda para recuperar seu posto é a Índia.

Hoje, a China está a recuperar o papel de potência econômica que ela sempre desempenhou, porém agora, o "empreendedor" PCC abriu suas fronteiras, o antigo confucianismo imperial que atuou em diversos períodos da História como um "freio de mão", foi abandonado. O confucionismo imperial minimizou a importância da proteção legal da riqueza e da propriedade e falhou em proteger o crédito e instituições financeiras necessárias para investimentos em larga escala. Atualmente, os valores confucianos (valores asiáticos) continuam a pregar a harmonia, mas esta tem como objetivo a prosperidade. Deng e seus acessores foram particularmente inspirados pelo governo chinês autoritário de Cingapura, que combina o rápido crescimento econômico com um forte controle social e político. Cingapura invocou os valores confucianos como meio de manter a ordem social através de um poderoso sistema hierárquico. O pensamento de Lee Kuan Yew (ex-primeiro ministro de Cingapura, 1959-1990) não apenas influenciou Beijing, mas também Hanói (Vietnã) e Rangum (a atual capital de Myanmar é Naypyidaw). Hoje em dia ser mercador, ou melhor enriquecer é a meta de cada vez mais chineses. A ilusão de igualdade social foi substituída pela ilusão da igualdade de oportunidades.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Camboja, 1779-1863

Esse período da História do Camboja foi marcado por perdas territoriais, desordem política e guerras. As frequentes invasões das duas potências da região, Sião e Vietnã, causaram instabilidade, o enfraquecimento das instituições do reino e graves efeitos em sua economia. O reino perdeu território, população e, consequentemente, renda; em desespero a corte aumentou os impostos, porém esta medida fez com que os líderes regionais, que dominavam a população, se rebelassem contra o poder central. Facções rebeldes eram ao mesmo tempo causa e consequência da instabilidade política do reino. A desordem no Camboja atraiu os regimes recém-consolidados de Bangcoc e Huê, que ofereciam assistência à uma das facções cambojanas, aumentando o clima de instabilidade. O preço desta ajuda era alto, cobrava-se território, mão de obra e influência nas decisões da corte. Do ponto de vista do Camboja, a principal característica deste período foi a decadência.


Disputas entre facções rivais dominaram a corte do Camboja; durante o século XVIII, cerca de nove reis - cinco deles reinaram por mais de um único período - ocuparam o trono por apenas alguns meses. Os membros da corte que faziam parte da oposião fugiam para terras desocupadas no delta do Mekong, às vezes sob proteção do Sião, com o objetivo de formar tropas e conquistar o trono do Camboja. No final do século XVIII, os siameses influenciavam a corte cambojana, conduziam invasões e entronaram um "monarca fantoche", para assim dominar o reino.

Em 1779, o príncipe Ang Eng foi escolhido rei de um Estado onde o governo era conduzido por conselheiros pró-siameses. No final do século XVIII, o Vietnã estava devastado por uma guerra civil, a Rebelião Tay Son (1771-1802), e foi forçado a concordar temporariamente com esta situação. Nos próximos oitenta anos, apenas outros três monarcas, todos descendentes diretos de Ang Eng, ocuparam o trono. Esta estabilidade, entretanto, não foi acompanhada pelo poder real do monarca que, até a década de 1840, continuou a ser influenciado pelo Sião ou Vietnã.

Em 1794, Ang Eng viajou à Bangcoc para ser coroado por oficiais siameses, este tratou-se de um evento sem precedentes na História do Camboja. Pouco tempo depois, a corte siamesa indicou o oficial cambojano pró-Sião, Ben, para governar as províncias de Battambang e Angkor. Estas permaneceram sob administração siamesa - governada por Ben e seus descendentes - até que fossem restauradas pelo protetorado francês do Camboja, em 1907.

Quando Ang Eng morreu, em 1796, os siameses não indicaram um sucessor, mas continuaram a comandar o Camboja através de oficiais cambojanos indicados pelo Sião. Em 1805, o filho de Ang Eng, Ang Chan, foi coroado em Bangcoc. Ao retornar à sua capital, Ang Chan logo foi reconhecido pela recém-constituída dinastia Nguyen do Vietnã. O imperador vietnamita Gia Long, seguindo as práticas diplomáticas sino-vietnamitas, respondeu enviando à Ang chan um selo da corte vietnamita reconhecendo a condição do monarca cambojano. Nesta época, foi estabelecido que o Camboja pagaria um tributo quadrienal para a corte vietnamita. Esta via a relação tributária como uma forma de"civilizar" o Camboja, que, frente à crescente força do Vietnã na região e da necessidade de equilíbrio em relação à hegemonia do Sião, não tinha nenhuma outra alternativa.

Três dos irmãos de Ang Chan permaneceram em Bangcoc sob custódia da corte siamesa e acompanharam a invasão siamesa sobre o Camboja de 1811, que retirou Ang Chan do poder por alguns meses. Em 1812, Ang Chan reassumiu o trono, auxiliado por tropas enviadas pelo senhor do Gia Dinh (região sul do Vietnã), Le Van Duyet. Em 1816, sua corte tornou-se um "pássaro de duas cabeças", pagando tributo à Bangcoc e para Huê. Não há muitas fontes sobre os próximos quinze anos. O silêncio sugere que o Sião e o Vietnã, preocupados com a ameaça que cada um representava ao outro, atingiram uma espécie de modus vivendi, talvez delimitando a esfera de influência de cada potência sobre o Camboja. O viajante inglês, que atravessou a região em 1823, relatou que o reino estava dividido em três partes - a porção vietnamita, a siamesa e o centro controlado pela corte cambojana.

Entre 1829 e 1832, ocorreram revoltas nas províncias que faziam fornteira com o Sião, nesta ocasião a corte cambojana acusou os oficiais de serem simpáticos aos siameses, e procurou desmantelar os acordos diplomáticos com o Vietnã e o Sião. Em 1833, o exército siamês, acompanhado pelos irmãos desafetos de Ang Chan, invadiu o reino. Durante esta expedição, os siameses conquistaram alguns territórios vietnamitas; em resposta, os vietnamitas invadiram o Camboja, expulsaram os siameses e restauraram Ang Chan - este morreu pouco depois, em 1834. Depois de sua morte, a corte Nguyen institucionalizou o Camboja como parte dos seus domínios e tentou administrar diretamente o reino, através de oficiais vietnamitas.

Os motivos vietnamitas para esta decisão continuam incertos, provavelmente estavam relacionados à recente morte de Le Van Duyet. Anteriormente, os Nguyen tinham receio de que a conquista do Camboja poderia fortalecer o senhor de Gia Dinh, portanto a invasão do reino vizinho só ocorreu após a morte de Le Van Duyet.

Em Phnom Penh, os vietnamitas instalaram a filha adolescente de Ang Chan como rainha. Confusa, a garota nomeou duas de suas irmãs como vice-rainhas e entregou seu governo ao domínio dos mandarins vietnamitas. Em contraste aos siameses, que no período no qual dominaram o Camboja governavam através de instituições cambojanas, os vietnamitas tentaram implementar sua burocracia e rapidamente revoltas surgiram por todo reino. Os cambojanos rebelaram-se contra o sistema de registro de terras, o censo e os altos impostos; entretanto outras características da administração vietnamita, como alterações no quadro burocrático e a troca do nome de algumas províncias, devem ter ofendido a elite burocrática.

Em 1841, depois dos Nguyen exilarem a rainha do Camboja, em Huê, e a prisão dos irmãos de Ang Chan, uma série de revoltas ocorreram no sul do Vietnã. Como resultado, quando as tropas vietnamitas lutavam contra os cambojanos, os siameses avançaram com a esperança de coroar o irmão de Ang chan, Ang Duong. Nos próximos três anos, as crônicas relatam que o povo vivia na miséria, enquanto siameses e vietnamitas, ajudados por facções cambojanas rivais, lutavam entre si. Nas negociações de paz, em 1846, ambos os lados concordaram em se retirar do território cambojano e aceitar Ang Duong como rei. O tratado marcou o reinício da influência siamesa na corte cambojana. Para selar o acordo, Ang Duong foi coroado em sua capital, em 1848, por representantes enviados pelo Sião e pelo Vietnã.

Ironicamente, Ang Duong dividiu sua lealdade entre o Vietnã e o Sião, como uma maneira de livrá-lo da influência de ambas as potências regionais. Uma das suas primeiras ações ao assumir o trono foi proibir o uso da terminologia administrativa siamesa. Em 1853, Ang Duong secretamente manteve contato com a corte francesa e escreveu uma carta à Napoleão III, na qual oferecia respeito em troca de amizade. Os presentes que acompanhavam a carta foram perdidos durante a viagem e com eles a oportunidade para os franceses interfirirem na região. Ang Duong interpretou o silêncio de Napoleão em relação aos presentes como uma demonstração de indiferença. Em 1856, um oficial francês chamado Montigny foi ao Camboja negociar alguns tratados comerciais, mas Ang Duong recusou, pois anteriormente Montigny contou-lhe sobre seus planos com o Sião. Encorajado a aceitar a França como aliada, Ang Duong disse: "O que você quer que eu faça? eu já possuo dois mestres, que sempre mantem seus olhos fixados no que eu faço. Eles são meus vizinhos e a França está muito longe". O monarca poderia ter aceito as garantias informais dos franceses que fortaleceriam o seu poder em relação ao domínio siamês e vietnamita, mas a França, no final da década de 1850, já tinha outros planos em mente.

Quando Ang Duong morreu em 1860, foi sucedido por seu filho mais velho, Norodom. Durante os próximos cinco anos, Norodom enfrentou uma série de rebeliões dinásticas e religiosas, que enfraqueceram seu poder. Neste período, os franceses tentavam consolidar seu poder no delta do Mekong, quando o fizeram, no final da década de 1850, começaram a se interessar pelo Camboja, cujo potencial econômico era considerado enorme. Norodom aceitou seus presentes e a atenção prestada pelos oficiais da marinha francesa. Em 1863, Ang Duong assinou um acordo com os franceses no qual aceitava sua proteção - os franceses herdaram a suserania praticada pelos vietnamitas, quando iniciaram a conquista do Vietnã, a partir de 1858. Norodom neutralizou essa ação negociando um protocolo secreto com o Sião, prometendo lealdade em troca de ser coroado rei do Camboja. Nesta proposta, os siameses seriam tutores e protetores da monarquia cambojana. Convidado pelo rei Mongkut a ser coroado na capital siamesa, Norodom, em 1864, ouviu dizer que os franceses haviam dominado seu reino enquanto o monarca viajava pela costa. O controle francês instaurou-se menos de um ano depois.

sábado, 14 de agosto de 2010

Os Chineses Ultramarinos: conceitos

Imagem: A casa tradicional de um mercador chinês ultramarino geralmente possui dois pisos, o térreo corresponde à sua loja e o piso de cima encontra-se sua moradia (antigo bairro chinês de Hoi An, Vietnã)
Fonte: Diogo Farias

No estudo das comunidades chinesas do Sudeste Asiático, a primeira dificuldade é a ausência de palavras precisas, em mandarim, para definir os movimentos populacionais realizados pelo povo chinês. O termo qiao, que se associa à hua, não é neutro. Antes do Tratado de Tianjin (1888), designava a “residência temporária” de oficiais estrangeiros na China.


Atendendo a legislação de 1893, a expressão huaqiao estava reservada àqueles que estariam provisoriamente no estrangeiro. Entretanto, o termo huaqiao foi objeto de numerosas polêmicas, porque certos emigrados chineses não se consideravam mais como residentes temporários e sentiam-se cada vez menos ligados a China continental. Estes preferiam termos como huaren ( chineses que residem fora da China) e huayi (descendentes de chineses, que possuem uma identidade nacional diferente em comparação aos imigrantes chineses recém-chegados).


A expressão mais apropriada para os definir chineses que vivem fora da China é “chineses ultramarinos”, que abrange:

  • Os imigrantes temporários;

  • Nacionais chineses residentes no estrangeiro;

  • Os chineses naturalizados, mas cujo sentimento de pertencer ao mundo chinês continua forte;

  • Os chineses naturalizados mais ou menos assimilados em seu país atual.


Em 1980, a República Popular da China promulgou uma lei proibindo a dupla nacionalidade. Os descendentes de chineses que não tivessem exclusivamente um passaporte de Beijing, não poderiam ser considerados cidadãos chineses.


A imigração chinesa é realizada por indivíduos que compartilham a mesma língua, escrita, cultura e a consciência de uma identidade própria. Entretanto, estes são provenientes de grupos geolinguísticos extremamente variados. A tradição chinesa tem origem na civilização Han, que se desenvolveu nas planícies centrais da China atual, absorvendo povos estrangeiros considerados como sinobárbaros.


As populações do vale do Rio Yangzi (Chang Jiang) foram assimiladas e integradas, pela civilização Han. O “Império Histórico” era muito menor do que a “China” que conhecemos hoje. A migração seguida pela colonização extendeu a área do povoamento, da cultura e do poder político chinês; além do seu ponto de partida original. O mundo chinês cresceu com a absorção de novos territórios e pela sinização dos seus habitantes nativos.


Somente a partir da Dinastia Tang (618-907), a etnia Han começou instalar-se realmente no sul da China. Esta dinastia empreendeu de forma massiva a colonização do Guangdong, nos séculos VIII e X. Durante a Dinastia Song (960-1368), os han chegaram em números consideráveis ao Fujian e somente no século XI, em Hainan.


Os chineses não resistiram aos ataques e a influência dos “bárbaros” turco-mongóis ao norte e a oeste, e dos “bárbaros” do sul, os yue. A primeira consequência, foi uma incrível fragmentação social do sul da China, que diferenciou muito os chineses meridionais dos setentrionais. A principal diferença reside no poder da estrutura de linhagem e clânica, e nos diversos estilos de organizações associativas. Estas particularidades consequentemente são sensíveis em todas as práticas sociais e religiosas.


A expressão mais marcante dos particularismos, entre as diferentes comunidades chinesas ultramarinas, origina da diversidade linguística do sul da China. Dezenas de dialetos, não compreensíveis entre si, coabitam em vilas próximas uma das outras. A China esta dividida em três grupos linguísticos principais: o grupo do Norte (mandarim e seus derivados), o grupo do Sul (yue, min, kejia) e um grupo intermediário, o wu de Shanghai.


A língua é o primeiro elemento constituinte da identidade do chinês ultramarino. O nome de sua vila, a província de origem ou a zona onde é falado o dialeto de seus pais, são as suas principais formas de identificação. As diferenças linguísticas entre as diversas populações que compõem as comunidades chinesas do Sueste Asiático são relevantes. Muitos chineses ultramarinos não se compreendem entre si, mesmo compartilhando a mesma escrita.


Para complicar, pessoas aparentemente do mesmo grupo linguístico, não compartilham necessariamente a mesma identidade cultural. Os chineses do Fujian (Hokkien), falantes do minnan (Quanzhou e Zhangzhou), são incapazes de compreender os moradores de Chaozhou (Teochiu), que falam um dialeto derivado do minnan.


Os chineses ultramarinos procuram emigrar para áreas onde possam encontrar pessoas com costumes semelhantes, assim as comunidades ultramarinas são marcadas por uma forte afinidade linguística (hokkien com hokkien, teochiu com teochiu, hakkas com hakkas).


A língua mais falada na China, é o mandarim. Hoje, muitos chineses ultramarinos preferem estudar o mandarim, em vez das línguas faladas pelos seus ancestrais. Este novo fenômeno, deve-se à busca de melhores oportunidades profissionais, concedidas aos falantes do mandarim.


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As Confederações Imperiais Nômades e os Ciclos de Poder na China

A origem e a organização do Estado.

A origem e a organização de Estados nômades na Ásia Central foi objeto de um considerável debate entre diversos estudiosos. Nesta primeira parte faremos uma pequena síntese das teorias que explicam o surgimento destes Estados e no item seguinte examinaremos alguns aspectos de suas relações com a China.


Ao estudar os casaques e os quirguizes no século XIX, o etnógrafo russo Wilhelm Radloff interpretou a organização política e a ascensão dos Estados nômades como uma transferência das políticas locais para níveis superiores. Diferenças de riqueza e poder dentro de pequenos grupos permitiram que certos homens clamassem por posições de liderança; desta maneira intervinham em conflitos dentro do grupo e organizava-o para sua defesa ou agressão contra inimigos externos. Para Radloff, a formação de grandes grupos organizados seriam tentativas de homens ambiciosos de adquirir um número cada vez maior de tribos sob seu controle. Este processo poderia criar um Império nômade, porém o etnógrafo afirmava que o poder do autocrata da estepe era puramente pessoal. Barthold modificou o modelo de Radloff, propondo que o líder nômade poderia ascender através de uma escolha popular associada à um movimento político originário do interior da sociedade nômade, como ocorreu na ascenção do Segundo Império Turco, no século VII. A escolha complementava a coerção, porque estes líderes atraíam seguidores por causa de seus sucessos na guerra e na pilhagem. Ambas as teorias caracterizavam os Estados nômades como organizações efêmeras, pois estas não sobreviveriam à morte do seu líder-fundador.


Outras teorias afirmavam que estes Estados destruíam as organizações tribais tradicionais, mesmo que no novo relacionamento ainda utilizasse a antiga terminologia tribal. Em seu estudo sobre os hunos, o húngaro Harmatta defendeu que o Estado nômade só surgiria num processo onde a base tribal da sociedade fosse primeiramente destruída e depois substituída por relações de classe. Harmatta queria provar que mudanças na ordem socioeconômica tornaram possível o aparecimento de líderes como Átila. O antropólogo Krader afirmou que os Estados nômades não poderiam existir sem relações de classe – produtores e não-produtores. Se estes Estados eram instáveis, isto se devia porque a base de recursos da estepe era muito reduzida.


Imagem: Fivela para cinto Xiongnu
Fonte: www.archeo.ru

Explicar a existência de Estados nômades era muito complicado para os marxistas, porque os povos das estepes não se encaixavam dentro dos estágios da evolução histórica marxista, e quando estes Estados entravam em colapso, os nômades retomavam suas organizações tribais tradicionais. Diversos artigos soviéticos lidavam com este problema ao debater o conceito de “feudalismo nômade”, originalmente proposto por Vladimirtsov, em sua análise dos mongóis. Esta forma de “feudalismo” baseava-se na ideia de que as classes sociais - e consequentemente a luta de classes - existiam dentro da sociedade nômade, e a origem destas estava relacionada com a propriedade do pasto. Outros estudiosos soviéticos afirmavam que a posse de animais era o fator determinante para a divisão das classes e não a da terra.


Tanto a teoria da divisão de classes, como a da acumulação de poder por líderes carismáticos defendiam que a ascensão de um Estado nômade era produto de um desenvolvimento interno. Radloff e Barthold diziam que os Estados nômades eram efêmeros, mas, como sabemos, muitos deles sobreviveram aos seus fundadores: como os xiongnu, os turcos, os uigures e os mongóis.


Um ponto de vista alternativo surgiu através de comparações entre as formas de organizações políticas dos pastores nômades da África e da Ásia. Burnham concluiu que o desenvolvimento de um Estado entre pastores nômades não se dava por causa de suas necessidades internas, mas por razões externas. Os nômades não copiaram o Estado de povos sedentários, mas foram forçados a desenvolver sua forma peculiar de Estado para conseguir se relacionar com os Estados sendentários, que eram maiores e mais organizados. Essas relações requeriam um nível maior de organização política; os principais Estados nômades emergiram como uma forma das tribos encararem a China, o maior, o mais centralizado e tradicional Estado sedentário.


Khazanov argumentou que os Estados nômades eram produtos do relacionamento assimétrico entre sociedades nômades e sedentárias - em benefício dos nômades. Tais relacionamentos eram criados pelos povos nômades ao conquistarem áreas sedentárias, nestas ocasiões tornavam-se a elite de uma sociedade mista - composta por nômades e sedentários. Entretanto, muitos Estados nômades estabeleceram e mantiveram essas relações assimétricas sem conquistarem regiões sedentárias. Os nômades tiravam vantagem do seu poderio militar: exigiam subsídios dos Estados vizinhos, taxavam e controlavam o comércio, sem deixar de viver no seu seguro refúgio, a estepe.


Segundo Barfield, foi o relacionamento entre a China e a estepe que criou a necessidade de existência de uma organização política hierárquica entre os nômades. Os Estados nômades mantiveram-se através da exploração da economia chinesa e não pela exploração de sua própria economia pastoril.


Os Estados nômades da Ásia Central eram organizados como “Confederações Imperiais”: tratava-se de um Estado autocrata em sua política externa, mas consultativo internamente. Eram organizados em uma hierarquia administrativa formada por pelo menos três níveis: o líder imperial e sua corte, os governadores imperiais, e os líderes tribais. Durante a organização do poder local, a estrutura tribal permanecia intacta, sob o comando de chefes, cujo poder derivava do suporte popular e não do apontamento imperial. A estrutura estatal modificou muito pouco a organização tribal, exceto por assegurar o fim das pilhagens e assassinatos edêmicos que eram o principal obstáculo para a união dos "povos da estepe". As tribos ligavam-se ao Estado através de sua subserviência aos governadores, geralmente membros da linhagem imperial. O governo imperial monopolizava a guerra e a política externa, entretanto interfiria muito pouco em questões tribais locais.


A estabilidade desta estrutura era garantida através de recursos vindos de fora da estepe. Razias, direitos comerciais e subsídios eram obtidos pelos nômades através do seu governo imperial. Se os líderes locais perdiam autonomia, em troca, recebiam benefícios materiais do sistema imperial, que dificilmente uma tribo conseguiria obter agindo individualmente. Quando o sistema entrava em colapso e os líderes tribais tornavam-se autonômos, a estepe retornava à sua organização tribal original.


Ciclos de poder.


A Confederação Imperial era a forma mais estável de Estado nômade, primeiramente organizada pelos Xiongnu, entre 200 a.C e 150 d.C., este modelo foi adotado posteriormente pelos Rouran (século V), Turcos e Uigures (séculos VI-IX), Oirats, Mongóis Orientais e os Zunghars (séculos XV-XVIII). O Império Mongol de Chinggis Khan (séculos XIII-XIV) era baseado em uma organização mais centralizada do que as confederações imperiais anteriores, seu Estado descontruiu as relações tribais pré-existentes, desta forma era o próprio Khan que escolhia todos os líderes locais.


Imagem: Brincos Xiongnu
Fonte: http://deps.washington.edu/

As confederações de tribos nômades existiram apenas em períodos onde era possível sua ligação com a economia chinesa, ou seja, seu surgimento geralmente ocorria quando havia um poder forte e centralizado na China. Os nômades aplicavam uma estratégia de extorção para ganhar direitos comerciais e subsídios da China; e era através desta estratégia que estes Estados nômades conseguiriam se manter. A burocracia chinesa preferia conceder privilégios aos nômades, porque era mais barato do que a guerra, pois estes povos escondiam -se com facilidade na estepe, tornando as expedições punitivas ou de conquista chinesas extremamente caras.


Muitas pessoas imaginam que os nômades ficavam esperando atrás da Grande Muralha por um momento de fraqueza da China, para enfim conquistá-la; na verdade os nômades geralmente não queriam conquistar os territórios chineses, mas sim manter a sua fonte de comércio e subsídios. Os uigures, por exemplo, eram tão dependentes destas rendas que chegaram a enviar tropas para conter rebeliões dentro da China. Com excessão dos mongóis, a “conquista nômade” ocorreu apenas depois do colapso da autoridade central chinesa - ou seja, durante o declínio das dinastias na China. Poderosos impérios nômades surgiram juntamente com a ascensão de diversas dinastias chinesas. Os Impérios Han e Xiongnu surgiram dentro de uma década de diferença, enquanto os Turcos emergiram durante a reunificação promovida pelos Sui/Tang. Quando a China encontrava-se em desordem e sua economia entrava em crise, não era mais possível manter a organização da confederação nômade e a estepe voltava a se dividir - situação que permanecia até a China unificar-se novamente.


A conquista da China por dinastias estrangeiras foi resultado do trabalho de povos manchús, que viviam na região do Rio Liao. O colapso político tanto na China, quanto na Ásia Central libertava estes povos. Diferentemente das tribos das estepes da Ásia Central, os manchús possuíam uma estrutura política igualitária e um íntimo contato com regiões sedentárias da Manchúria. Em tempos de desunião, formaram pequenos reinos que combinavam tradições tribais e chinesas, dentro da mesma administração.


O modelo cíclico, proposto por Wittfogel e Feng, caracterizou o relacionamento entre os chineses e os nômades da Ásia Central, este repetiu-se pelo menos três vezes num curso de 2000 anos. A primeira característica deste ciclo, como já vimos, era que a organização de confederações tribais ocorriam paralelamente à ascensão de uma dinastia chinesa que reunificasse o território chinês de forma duradoura e estável. Quando ocorria o colapso duplo na China e na estepe, este criava um ambiente instável, muitas dinastias surgiram durante estes períodos, porém possuíam uma organização política fraca e um tempo vida curto. As dinastias que possuíam um melhor modelo de organização política restauravam a ordem e conseguiam conquistar um imenso território. As dinastias nativas do sul (chinesas) e as dinastias estrangeiras do noroeste e do nordeste dividiam o domínio do território chinês entre si. Durante as guerras de reunificação, as dinastias estrangeiras eram destruídas e a China viria a ser unificada por alguma dinastia nativa - o que dava início à um novo ciclo. O tempo entre a queda da grande dinastia nativa e o re-estabelecimento da ordem sob um governo estrangeiro decrescia a cada ciclo – séculos de instabilidade seguiram o colapso do Império Han, décadas depois do Império Tang e um período muito curto após a queda dos Ming. A duração das dinastias nômades possuem um modelo similar – curto no primeiro ciclo e longo no terceiro.



Imagem: Cerâmica Xiongnu

Fonte: http://depts.washington.edu/

Segundo Barfield, Wittfogel e Feng não levaram em conta que com excessão dos Mongol Yuan, todas as dinastias conquistadoras eram de origem manchu. Também falharam em não perceber que os nômades da Mongólia estabeleceram impérios na estepe - com excessão dos mongóis que fundaram a dinastia Yuan - e os nômades da Manchúria estabeleceram dinastias dentro da China, mas nunca criaram poderosos impérios nas estepes.


A estepe mongol, o norte da China e a Manchúria devem ser analisadas como partes de um único sistema histórico. É possível perceber, ao analisar a imagem abaixo, como funcionava os ciclos dinásticos.


Imagem: Os ciclos dinásticos (neste quadro foi utilizado o sistema Wade-Giles).

Fonte: BARFIELD, Thomas J., The Perilous Frontier: Nomadic Empires and China, 221 BC to AD 1757 (Cambridge: Basil Blackwell Publisher, 1989).


Os Han e os Xiongnu tiveram sua ascensão e declinío quase que simultaneamente. Os Xiongnu perderam sua hegemonia na estepe, por volta de 150 d.C., quando foram substituídos pelos Xianbei, que mantiveram-se unidos até 180 d.C. Neste mesmo ano, uma grande rebelião estorou na China, e a Dinastia Han sobreviveu nominalmente apenas por mais vinte anos. É importante notar que não foram os nômades, mas sim os rebeldes chineses, que destruíram o Império Han. Nos 150 anos seguintes (grosso modo), enquanto os chefes militares chineses lutavam pela China, os manchús estabeleceram pequenos Estados no norte da China. O Estado Yen (Murong) parecia ser o mais organizado e estabeleceu o controle da região noroeste durante o século IV. Eles criaram uma organização política que foi adotada pelos Wei (Tuoba), que haviam derrotado os Yen e unificaram o norte da China. Foi somente com a unificação do norte da China que os nômades da Mongólia estabeleceram novamente um Estado centralizado sob a liderança da tribo Rouran. Entretanto, os Rouran nunca controlaram por inteiro a estepe, porque os Tuoba mantiveram muitas tropas na fronteira da Mongólia. Suas incursões foram de tal sucesso, que os Rouran foram incapazes de ameaçar a China até o final da dinastia, quando os Tuoba estavam tão sininizados que começaram a aplicar políticas utilizadas durante o período Han.


Uma rebelião interna derrubou os Wei, iniciando-se um período de reunificação da China sob as dinastias dos Wei Ocidentais e Sui - durante o século VI. Os Rouran foram derrotados por seus vassalos, os turcos, que eram tão temidos pelos chineses, que estes pagavam grandes subsídios em seda para garantir a paz. A fronteira voltou a ser bipolar e os turcos iniciaram uma política de extorção similar à praticada pelos Xiongnu. Durante a queda dos Sui e ascensão dos Tang, os turcos não tentaram conquistar a China, mas tomaram partido de alguns pretendentes chineses ao Mandato Celeste. Desta forma, a Dinastia Tang ficou dependente dos nômades para conter rebeliões domésticas, por exemplo, a ajuda dos uigures foi decisiva contra a Rebelião de An Lushan, em meados do século VIII. Depois dos uigures serem vítimas de um ataque quirguiz, em 840, a estepe central entrou em um período de anarquia. Os Tang declinaram pouco tempo depois, por causa de rebelião popular.


A queda dos Tang deu oportunidade para o desenvolvimento de Estados mistos na Manchúria. o mais importante deles foi o da Dinastia Liao, estabelecida pelos nômades khitans. Como o Estado Yen, séculos antes, os Liao empregaram uma administração mista para acomodar tanto a organização chinesa, quanto a tribal. Os Liao também foram vítimas de outro grupo da Manchúria, os Jurchen. Eles derrotaram os Liao, no início do século XII, e estabeleceram a Dinastia Jin, consquistando todo o norte da China e confinando os Song ao sul. Neste ponto, os primeiros dois ciclos possuem uma estrutura similar, mas a ascensão dos Mongóis criou um grande rompimento que causou profundas consequências não apenas para China, como para o mundo todo.


Nenhum Estado nômade havia emergido da Mongólia, durante os períodos em que o norte da China havia se separado por brigas entre senhores-da-guerra (do inglês, warlords) seguido pelo colapso de grandes dinastias nativas. O re-estabelecimento da ordem por dinastias estrangeiras da Manchúria solidificaram a fronteira, o que favorecia a criação de Estados centralizados nas estepes. Estas dinastias estrangeiras estavam cientes do perigo que a Mongólia representava, e para que essas tribos não se unissem, sua tática era colocar uma tribo contra outra através de jogos políticos. Aliada à estratégia de “dividir e governar”, estas dinastias conduziam grandes expedições punitivas que capturavam pessoas e animais da estepe; e mantinham um sistema de alianças, através de casamentos.

Apesar do sucesso de Chinggis Khan, o conquistador mongol enfrentou muitas dificuldades para unir a estepe contra os Jurchen – isto consumiu a maior parte de sua vida adulta e ele chegou perto de falhar em inúmeras ocasiões. Seu Estado era diferente de todos os outros: era muito centralizado e possuía um exército extremamente disciplinado. Como outros unificadores nômades, o objetivo de Chinggis era inicialmente extorquir a China, e não conquistá-la. Entretanto a corte Jurchen (já muito "achinesada") rejeitou uma conciliação e recusou a quebrar seu acordo com os mongóis. As guerras das próximas três décadas destruiram o norte da China e deixou os mongóis em vantagem. Sua falta de interesse e preparação para governar a China foi refletida pelo fato de não conseguir estabelecer uma administração regular antes do reinado de Khubilai Kahn, o neto de Chinggis.


Imagem: Um jovem nobre do período Yuan, por Qian Xuan
Fonte: www.art-virtue.com

A vitória de Chinggis Khan demonstrou que o modelo de Barfield é probabilístico e não determinista. Sempre existiram líderes tribais como Chinggis Khan nos tempos de desordem, mas suas chances de unificar a estepe frente aos Estados Manchús, estabelecidos na China, eram poucas. Enquanto os Rouran foram incapazes, os Turcos foram mais talentosos, mas por causa de sua habilidade em explorar os novos Estados chineses, que pagavam muito bem para que não fossem incomodados, não possuíam interesse pela conquista. Chinggis superou sua desvantagem – já que os jurchen eram podereosos e os mongóis eram uma das tribos mais fracas da estepe. Este encontro entre um poderoso Estado nômade e uma poderosa dinastia estrangeira foi único e altamente destrutivo. Os mongóis organizaram ataques cruéis com o objetivo de induzir uma paz lucrativa, mas falharam porque os jurchen rejeitaram um acordo, o que fez com que os mongóis aumentassem sua pressão até que a vítima fosse aniquilada.


Os Mongóis foram os únicos nômades da estepe central que conquistaram a China. Durante o período Ming alguns impérios surgiram, como os Oirats e mais tarde os Mongóis Orientais, mas trataram-se de Estados instáveis. Com a memória da invasão Mongol ainda viva, os Ming ignoraram as políticas Han e Tang e adotaram a política do não-relacionamento - os nômades responderam atacando a fronteira. Quando finalmente os Ming mudaram sua política, os grandes ataques acabaram e a fronteira estava segura novamente. Depois dos Ming enfrentarem rebeldes chineses, durante o século XVII, foram os manchús, e não os mongóis, que conquistaram a China e estabeleceram a Dinastia Qing. Como os antigos governantes manchús, os Qing empregaram uma estrutura administrativa mista e de forma eficiente evitaram as tentativas de unificação da estepe, cooptando líderes mongóis e dividindo suas tribos em pequenas unidades sob domínio manchú. O ciclo do tradicional relacionamento entre China e Ásia Central chegou ao fim com os armamentos e sistemas de transportes modernos, e o novo contexto internacional, que abalou a ordem sinocêntrica.


Bibliografia:

  • BARFIELD, Thomas J., The Perilous Frontier: Nomadic Empires and China, 221 BC to AD 1757 (Cambridge: Basil Blackwell Publisher, 1989).
  • BARTHOLD, V. V., Turkestan down to the Mongol Invasion (Londres: Gibb Memorial Series, 1968).
  • BURNHAM, Philip, "Spatial mobility and political centralization in pastoral societies." in Pastoral Production and Society, L'Équipe écologie et anthropologie des sociétes pastorales (ed.) (Cambridge: Cambridge University Press, 1975).
  • HARMATTA, J., "The dissolution of the Hun Empire", Acta Archeologica, 2 (1952): 277-304.
  • KHAZANOV, Anatoly, Nomads and the Outside World (Cambridge: Cambridge University Press, 1985).
  • KRADER, Lawrence, "The origin of the state among nomads," in Pastoral Production and Society, L'Équipe écologie et anthropologie des sociétés pastorales (ed.) (Cambridge: Cambridge University Press, 1975).
  • LATTIMORE, Owen, Inner Asian Frontiers of China (Nova York: American Geographical Society, 1940).
  • RADLOFF, Wilhelm, Aus Siberien, 2 vols (Leipizig: Weigal Nachfolger, 1983).
  • VLADIMIRTSOV, Boris, Le régime social des Mongols: le féodalisme nomade (Paris: Adrien Maisonneuve, 1948).
  • WITTFOGEL, Karl, FENG Chia-sheng, The History of Chinese Society: Liao (907-1125) (Filadélfia: American Philosophical Society, 1949).

terça-feira, 20 de julho de 2010

O veto à burqa e ao niqab na França - Parte II

Caros amigos e alunos, respeito todas as opniões e gostaria de aproveitar para agradecer pela participação de todos . É um privilégio poder discutir com vocês, aliás, é para isso que abrimos este espaço, para que possamos discutir livremente sobre qualquer assunto. Este blog é democrático e o que mais quero é promover esta discussão.

Irei primeiro responder às críticas e posteriormente reintroduzir a questão que considero central. Acho que alguns comentários, ao criticar os muçulmanos, acabam demonstrando a face intolerante da cultura “ocidental”. Sim, muitas vezes somos etnocentristas, interpretamos e julgamos a cultura alheia através dos valores e referências da nossa própria cultura - conjuguei o verbo na 1ª pessoa do plural, o que me inclui nesta definição. O etnocentrismo e o preconceito são amantes inconsequentes e ambos se enganam com a falta de informação. É triste perceber que de uma maneira geral, as pessoas não recebem informações claras sobre o Islã. Quando conto alguns casos que vivi, onde a comunicação e o respeito prevaleceram, quero que vocês interpretem e compreendam a situação - as religiões são diferentes, mas ambas pregam a paz. Meu objetivo não é ser um ativista pró-Islã, meu compromisso é com a liberdade e com o respeito.

Primeiramente, 6% da população francesa é muçulmana, ou seja, uma "pequena" minoria de quase 4 milhões de pessoas! Quando afirmei que muitos destes muçulmanos são imigrantes, não queria dizer que não há muçulmanos franceses. É lógico que há cidadãos franceses muçulmanos, como também há imigrantes naturalizados (ou seja, possuidores dos mesmos direitos dos demais franceses), imigrantes legalizados e ilegais. Muitos dos muçulmanos vivem em seu país (a França, diga-se de passagem) e tem todo o direito de reclamar por seus direitos e se sentirem ofendidos por esta lei, sendo eles maioria ou minoria da população. E mesmo que se todos os muçulmanos fossem imigrantes, ainda assim defenderia seus direitos, porque formam um grupo social extremamente importante para o bom funcionamento do Estado. São humanos, pessoas iguais à todas as outras e devem ser respeitados.


Aliás, é só andar por Paris e perceber que sua mesquita é linda, kebabs são facilmente encontrados, o Instituto do Mundo Árabe é magnífico e o Museu do Louvre possui uma bela coleção de arte islâmica. É extremamente perceptível a relevância e o refinamento da cultura árabe/muçulmana, seu legado para a humanidade é brilhante, e importante para nossa definição como "ocidentais", herdeiros dos valores greco-romanos. Muitas das obras de escritores gregos e romanos foram traduzidas, recuperadas e transmitidas por muçulmanos, como ocorreu no al-Andalus. Eu admiro muito a França, principalmente o apoio que seu Estado dá à cultura, a pesquisa e à difusão do conhecimento. Porém, não podemos permitir que essas conquistas sejam manchadas por opniões ou ações intolerantes.

Muitos defendem o direito de respeitar as leis, quando estamos num país estrangeiro. Concordo devemos respeitar sim, mas muitos muçulmanos franceses estão sendo ofendidos por um projeto de lei discriminatório dentro de seu próprio país. Mas vamos relembrar, a lei ainda não foi inteiramente aprovada, portanto ela deve ser abertamente discutida por todos e a opnião da comunidade internacional é extremamente importante. O Parlamento Europeu se opõe ao veto da burqa e do niqab, e demonstra que este é um projeto polêmico, que necessita ser debatido abertamente (acesse o link e leia a http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/parlamento+europeu+se+opoe+a+proibicao+da+burca/n1237677338952.html). No exterior é lógico que respeito as leis do país que estou visitando, mas sempre defenderei o direito da liberdade de expressão e de opnião, porque o debate é um dos pilares da democracia, e as leis não são imutáveis ou eternas. Vamos recordar... quantas Constituições o Brasil já teve? Se não estiver enganado são 8. Ou seja, destas oito, sete foram criticadas, revistas e substituídas; imaginem o número de leis que não passaram pelo mesmo processo. Discutir uma lei, de maneira respeitosa, é um exercício da democracia e, por outro lado, na qualidade de cidadão europeu, sinto-me ofendido pelo projeto francês - tenho dupla cidadania: brasileira e portuguesa.

Em relação à minha querida China, por mais que admiro sua cultura e guardo boas lembranças deste país, porém sou crítico da falta de liberdade de expressão imposta pelo PCC e de todos seus aspectos negativos. Sobre Cuba, discordo da situação dos seus presos políticos e da falta de instituições democráticas; na Arábia Saudita, critico o fato das mulheres não poderem andar sozinhas na rua; na Suiça, acho um absurdo as agências de seguro que cobram o dobro do preço de seus serviços aos clientes brasileiros. No Brasil, critico nossa desigualdade social, a política do governo Lula em relação ao Irã e como nossa mídia trata nossas mulheres como objetos. Na Inglaterra, ainda cobro explicações e as devidas punições às pessoas envolvidas com o assassinato de Jean Charles; e lógico, na França ou em qualquer outro país do mundo, criticarei medidas e leis anti-democráticas e preconceituosas. Eu não estou defendendo o Islã ou o cristianismo, mas sim a democracia e a liberdade de expressão; conceitos que são compátíveis às duas religiões. Condeno totalmente o preconceito, como já afirmei, passei por situações em que fui vítima deste crime e afirmo: sua ferida pode melhorar, mas a cicatriz estará lá para sempre.


Gostaria de deixar claro que o Islã não reprime ou obriga as mulheres a usarem a burqa ou o niqab. No Islã, apenas uma pequena minoria das mulheres usam a burqa ou o niqab, e a imagem de mulheres com a vestimenta integral não deve ser o esteriótipo da mulher muçulmana - há pouco tempo, este papel era ocupado pelas odalíscas. Esteriotipar e generalizar são atos equívocos, que não conseguem refletir a realidade.

No âmbito da questão de segurança, a lei também é extremamente preconceituosa. Primeiro, o terrorismo moderno já era uma tática usada pelos anarquistas europeus. Há terroristas na Europa, cujos integrantes não são muçulmanos, como por exemplo, o grupo separatista basco, o ETA, que age principalmente na Espanha, mas parte do país basco está em território francês. Segundo, peço que enviem um link que mostre uma notícia de um atentado, dentro da Europa Ocidental (e mais precisamente na França), onde o terrorista estava vestido de burqa ou niqab? Que eu saiba, isso só ocorreu em países muçulmanos, se já ocorreu algum na Europa Ocidental trata-se de um caso isolado. Como terroristas muçulmanos ou os terroristas ocidentais europeus agem? De forma discreta, é claro, porque para os olhos da população preconceituosa “ocidental”, o usuário da vestimenta integral será sempre um suspeito, até que provem o contrário – alguns comentários me levaram a esta conclusão. Agora, façam uma busca no “Google” dos terroristas do ETA e do IRA, são pessoas aparentemente normais, uma vez eu vi uma foto de um procurado no aeroporto de Barajas (Madri, Espanha), era uma senhora de rosto nada ameaçador, porém tratava-se de uma perigosa terrorista. Os terroristas muçulmanos dos atentados de 11/09, do metro de Madri e de Londres estavam vestidos com trajes discretos. Porque de fato, antes que seu objetivo seja cumprido, o correto é não chamar atenção - este é o procedimento padrão, não uma regra infalível .

Criar uma lei como essa, além de uma confissão de intolerância, é marcar um ponto a favor para o terrorismo. É dificultar a convivência e gerar um clima cada vez mais instável. Eu não estou eliminando a hipótese de que um terrorista não pode atacar vestido de burqa ou niqab, mas a grande maioria faz o contrário. Devemos proibir os cidadãos de usar bonés e óculos escuros ao mesmo tempo? Este conjunto não dificultaria a identificação de possíveis terroristas? O que impede um terrorista de se vestir de freira ou de padre, e embaixo de sua confortável batina carregar poderosos explosivos sem que nínguem perceba? Garanto-lhes que é um disfarce melhor do que a burqa e o niqab. Aliás, alguns terroristas cometeram atentados em Israel disfarçados de judeus ortodoxos, para vitimar judeus ortodoxos. Acreditar que proibir o uso da burqa e do niqab será uma medida eficaz contra o terrorismo é totalmente errôneo. O tema que deve ser discutido aqui é a eficácia deste projeto de lei, o costume e as tradições de cada povo é um tema relevante, porém secundário.

Ao invés de aprovar uma lei que gera um visível mal estar, porque não criar medidas que não ferem a crença de ninguém, baseadas no respeito ao ser humano em primeiro lugar. Basta vontade política, incluir os prejudicados na discussão e encontrar uma “terceira via” que agrade à gregos e troianos. Concordo que em alguns lugares as pessoas devam se identificar, mas há de se encontrar um meio em que o processo de identificação seja feito de forma politicamente correta. Proibir uma vestimenta me parece agressivo e inadequado, creio que uma discussão franca e aberta será a melhor forma de encontrar uma saída, por favor não vamos entregar a vitória para o preconceito.

Esta lei demonstra claramente que alguns olhos “ocidentais” preconceituosos não querem ver e nem conviver com o Islã. É uma incoerência defender a democracia, a modernidade e a igualdade e ao mesmo tempo concordar com a intolerância e a opressão. Desculpe-me, mas não podemos julgar as pessoas previamente e muitos estão cometendo este erro gravíssimo.

Meu caro Raphael, este assunto também instigou meu paladar. Mas vamos continuar a discussão enquanto esta promissora oportunidade não chega.

Quanto à mutilação do clítoris, acho que este é um assunto interessantíssimo para uma discussão à parte, porque o problema em relação à vestimenta integral muçulmana não está somente inserida num contexto religioso, cultural e social; mas possue um peso político extremamente relevante, principalmente no mundo pós-11/09. Sei que o amigo Raphael respeita outras culturas e por isso considero sua opnião. O problema é a natureza e o caráter deste projeto de lei, que tanto me causa angústia. Porque julgar os muçulmanos como uma possível ameaça (aí está o elemento preconceituoso) e não se preocupar com a situação da mulher: se os seus direitos são respeitados, se ela é oprimida pela sua família, ou se precisa de apoio do Estado – por isso defino que as muçulmanas francesas ou imigrantes são tratadas como “cidadãs de segunda classe”, dentro de uma sociedade que teoricamente teria que prezar pela a igualdade e pela liberdade.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O veto à burqa e ao niqab na França

Fonte: www.janzwart.nl

A Câmara Baixa francesa aprovou no dia 12 de Julho de 2010, com 335 votos a favor e apenas um contra, o projeto de lei que proíbe o uso do véu integral islâmico - como a burqa (que cobre todo o corpo) ou o niqab (que deixa apenas os olhos a mostra) - em locais públicos. O projeto segue para o voto no Senado, em Setembro. Segundo pesquisas divulgadas, a medida conta com o apoio da população francesa, porém poderá atrair críticas do mundo muçulmano.

A medida poderá entrar em vigor já no primeiro semestre de 2011, segundo seu projeto, a multa para as mulheres que usarem a burqa ou o niqab será de até 150 euros (vale lembrar que haverá um período de vacatio legis de seis meses). Quem pressionar uma mulher a sair com estas vestimentas em espaços públicos pode pegar penas que chegam a um ano de prisão e multas de até 150 mil euros. A direita governista alega que o uso da vestimenta integral fere a liberdade e a dignidade da mulher e é ainda um risco à segurança, já que não permite sua identificação.

Na opnião deste blogueiro, esta medida fere a liberdade dos cidadãos, além de ser claramente islamofóbica. O uso do véu é visto pela mulher muçulmana como uma demonstração de respeito à Deus. No mundo muçulmano o uso do véu não é obrigatório, já abordamos anteriormente a diversidade dentro do Islã, sabemos que há sociedades mais "abertas" (como a Turquia e o Líbano) e sociedades mais "fechadas" (como o Iêmen e a Arábia Saudita). Caracterizar o mundo muçulmano como "feudal", atrasado e intolerante, é o mesmo que utilizar os amish, ou apenas os cristãos texanos adeptos do Partido Republicano, como esteriótipo dos cidadãos dos EUA, ignorando todos os outros grupos sociais do país. Dentro do mundo muçulmano há diferentes tipos de mulheres, desde a mulher moderna e independente que não usa o véu, até a sua antítese, aquela que é usuária da burqa.

Uma sociedade moderna deve prezar pela liberdade e bem-estar de seus cidadãos, e dentro deste conceito garantir a liberdade de expressão de cada um. Ao mesmo tempo que essa parcela xenófoba da população francesa se sente ameaçada pela burqa, estes parecem estáticos em relação às mulheres seminuas que aparecem em anúncios, divulgando os produtos nacionais franceses (não quero generalizar, conheço muitos franceses e os admiro, pois são abertos e em geral bastante cultos). É lógico que não defendemos que alguns homens obriguem suas mulheres a usar a burqa ou o niqab, porém algumas mulheres utilizam a vestimenta integral por vontade própria. Neste sentido, entendemos que obrigar uma mulher a utilizar a burqa ou o niqab pode ser uma forma de opressão, mas na medida em que seu uso seja uma opção de vida de uma mulher, ela deve ter todo o direito de se vestir como bem entender.

Calcula-se que menos de 2000 mulheres usam a burqa ou o niqab na França, ou seja, esta medida afeta uma fração mínima da população do país (que gira em torno de 64 milhões). Será que um Estado organizado, como o francês, não está apto a analizar cada caso, já que são proporcionalmente poucos, e definir quais destes são situações onde ocorre opressão ou uma opção de conduta? Será que é necessário criar um desconforto em relação a população muçulmana francesa? Será que a melhor maneira de erradicar a opressão e a intolerância é agir através de medidas opressivas e intolerantes?

Quando morei em Lisboa, frequentei a Mesquita de Lisboa, apesar de não ser muçulmano (aliás não sigo nehuma religião). Como estudante do curso de mestrado, queria compreender melhor o Islã, uma religião que prega a paz e o amor à Deus e não a guerra e a intolerância. Na mesquita, participei de um curso direcionado às mulheres muçulmanas, no começo fiquei um pouco tímido, por que de fato não conhecia na prática esta religião, e tinha receio de ser mal interpretado. Estava enganado, fui muito bem recebido, além de ser aceito para participar do curso ao lado de todas as mulheres - tudo bem, eu no fundo da classe e as mulheres à frente. Em nenhum momento foi transmitido ideais de intolerância e opressão, aliás, exceto dentro da mesquita, onde o uso do véu é obrigatório, nínguem afirmou que as mulheres deveriam utilizá-los fora dela.

No nosso Brasil, cuja maioria da população é cristã (ou até mesmo na "laica" França), ocorrem casos de violência doméstica que assustam qualquer cristão ou muçulmano; creio que esses casos de opressão não ocorrem por causa da religião dos agressores, mas sim pela sua falta de fé (equilíbrio, bom-senso, humanidade ou de melhores condições sociais). Um Estado progressista e moderno deve garantir o cumprimento dos direitos das mulheres e de todos os seus cidadãos, e não estimular um clima de intolerância religiosa e social, porque muitos dos muçulmanos da França são de origem estrangeira, principalmente provenientes do Norte da África. É muito leviano aprovar leis islamofóbicas camufladas num discurso pseudofeminista, ao invés de dar assistência à uma comunidade representada maioritariamente por imigrantes e seus descendentes - o governo francês deixa claro que esta é uma medida para resolver um problema "indesejado", causado por "cidadãos de segunda classe".


Hoje, dia 14 de Julho de 2010, é necessário ressaltar os ideais revolucionários de "liberdade, igualdade e fraternidade", que deverão sempre prevalecer na sociedade francesa (independente de suas interpretações históricas). É nesta França que quero acreditar, dos franceses que tive o prazer de conhecer, que respeitam as pessoas em seu país ou fora dele; a França de jovens abertos, que aprenderam a conviver, entender e respeitar a diversidade.


Imagem: diferentes vestimentas da mulher muçulmana. Vale lembrar que não usar um véu também é uma opção da mulher.
Fonte: www.muslimthai.com